
31 de agosto de 2001
Nada de mais
afastado do modelo proustiano do que o filme que Chantal Ackerman foi buscar a
“La Prisionnière” de Proust, e a que deu o título de “La Captive”. Não quer dizer
que se não possam encontrar correlações: julgo que entre um conto como
“L’Indifférent” do próprio Proust (e a que ele não atribuía demasiada
importância) e a personagem de Ariane existem pontos comuns. Mas tudo isso se
revela relativamente secundário perante o que é a manutenção quase minuciosa de
uma mesma intriga e a mudança radical no modo de lhe dar forma. Onde Proust
privilegia a longa deambulação da inteligência procurando escalpelizar o que
lhe escapa, mas guiada por uma verdadeira obsessão da lucidez máxima, que
apenas o sentimento de um impiedoso ludíbrio mina por dentro, Chantal Ackerman
coloca tudo a nível dos corpos, e lança-os de um modo desamparado para uma
espécie de sonambulismo.
Sim, é
verdade, este filme foi filmado por dentro do sono, sendo Simon a parte
introvertida e interna desse sono, e Ariane (nome certamente escolhido pelas
suas conotações labirínticas) a sua parte solar e extrovertida. Tal como as
coisas se colocam, este filme pouco tem a ver com o ciúme, mas, sim, com o
sentimento de exclusão e exílio recíproco em que os dois amantes se situam. Se
alguma coisa define Ariane, é precisamente essa espécie de passividade
provocatória (esse “como tu quiseres” que, nas cenas finais se torna
obsessivamente paródico) em que ela se coloca perante Simon, sabendo que a sua
docilidade esconde uma liberdade absoluta e irredutível. Por isso o fascínio de
Ariane vem do lado de personagens como Bartleby da famosa novela de Melville.
O principal
ponto de assimetria (que faz que, no diálogo com Sarah e a amiga, não haja
campo e contracampo possível entre o protagonista e as suas interlocutoras)
reside no facto de Simon, para se aproximar de Ariane, e finalmente a possuir,
pretender devir mulher (o que é explícito nos gestos da sexualidade). Só que
Simon se equivoca porque no devir-mulher ele vê a mulher como um lugar fixo ao
qual o devir deverá levar-nos. E numa mulher nunca é o “ser mulher” que a faz
mulher, mas o “ser devir”. Daí que Ariane seja capaz de “pensar em nada” e “ser
esse nada que pensa”, e Simon apenas consiga querer ser o objeto em que pensa.
Daí que Ariane seja aquela que se limita a “ver”, enquanto Simon nunca consegue
“ver” alguém sem o “ver como um grande estranho” ou “como um conhecido”.
Tudo isto
ganha uma espantosa energia visual nas cenas finais: Ariane desaparece, isto é,
assume-se como o nada que é, e Simon avança em direção ao mar, dividido entre
um corpo iluminado que caminha e uma cabeça que desaparece no negro da noite. Quando
ele regressa no barco que o salvou, vem atónito e violentado: não se sabe o que
viu, mas suspeitamos que ele viu de frente essa nada que finalmente o libertou
dos intermináveis labirintos do sono.