domingo, 31 de agosto de 2025

31 de agosto [de 1993]

 

       Pál Ferenc, que ensina literatura portuguesa na Universidade de Budapeste, anuncia-me a publicação recente de O Ano da Morte de Ricardo Reis na Hungria. Elogia, ainda que com algumas reticências, a tradução de Ervin Székely e recorda que no «passado ano académico» (o último?) a minha visão da história portuguesa «teve um sucesso». Acrescenta, e isto é o mais importante, que «neste momento húngaro nós poderíamos aprender muito com o seu ideário e as suas obras e é por isso, além do valor artístico, que cada vez mais aprecio os seus romances”. Gosto de o saber, mas dá-me vontade de dizer que seria mais proveitoso que estes moços se dirigissem a Deus em vez de rezarem no pequeno altar deste santo, ou, por outras palavras, lessem diretamente certos historiadores — os dos Annales, os da Nouvelle Histoire, o nosso José Mattoso — em lugar de gastarem o seu tempo a desenredar a história que se encontre nos meus romances. Mas certamente haverá para o gosto deles uma razão: talvez porque dos historiadores só se espera que façam história, e eles, de uma maneira ou outra, sem surpresa, sempre a fazem, ao passo que o romancista, de quem se conta que não faça mais que a sua fiçãozinha de cada dia, acaba por surpreender, e pelos vistos muito, se guiou essa ficção pelos caminhos da história como se leva uma pequena lanterna de mão que vai iluminando os cantos e os recantos do tempo com simpatia indulgente e irónica compaixão.

Como tu quiseres

 

31 de agosto de 2001

Nada de mais afastado do modelo proustiano do que o filme que Chantal Ackerman foi buscar a “La Prisionnière” de Proust, e a que deu o título de “La Captive”. Não quer dizer que se não possam encontrar correlações: julgo que entre um conto como “L’Indifférent” do próprio Proust (e a que ele não atribuía demasiada importância) e a personagem de Ariane existem pontos comuns. Mas tudo isso se revela relativamente secundário perante o que é a manutenção quase minuciosa de uma mesma intriga e a mudança radical no modo de lhe dar forma. Onde Proust privilegia a longa deambulação da inteligência procurando escalpelizar o que lhe escapa, mas guiada por uma verdadeira obsessão da lucidez máxima, que apenas o sentimento de um impiedoso ludíbrio mina por dentro, Chantal Ackerman coloca tudo a nível dos corpos, e lança-os de um modo desamparado para uma espécie de sonambulismo.

Sim, é verdade, este filme foi filmado por dentro do sono, sendo Simon a parte introvertida e interna desse sono, e Ariane (nome certamente escolhido pelas suas conotações labirínticas) a sua parte solar e extrovertida. Tal como as coisas se colocam, este filme pouco tem a ver com o ciúme, mas, sim, com o sentimento de exclusão e exílio recíproco em que os dois amantes se situam. Se alguma coisa define Ariane, é precisamente essa espécie de passividade provocatória (esse “como tu quiseres” que, nas cenas finais se torna obsessivamente paródico) em que ela se coloca perante Simon, sabendo que a sua docilidade esconde uma liberdade absoluta e irredutível. Por isso o fascínio de Ariane vem do lado de personagens como Bartleby da famosa novela de Melville.

O principal ponto de assimetria (que faz que, no diálogo com Sarah e a amiga, não haja campo e contracampo possível entre o protagonista e as suas interlocutoras) reside no facto de Simon, para se aproximar de Ariane, e finalmente a possuir, pretender devir mulher (o que é explícito nos gestos da sexualidade). Só que Simon se equivoca porque no devir-mulher ele vê a mulher como um lugar fixo ao qual o devir deverá levar-nos. E numa mulher nunca é o “ser mulher” que a faz mulher, mas o “ser devir”. Daí que Ariane seja capaz de “pensar em nada” e “ser esse nada que pensa”, e Simon apenas consiga querer ser o objeto em que pensa. Daí que Ariane seja aquela que se limita a “ver”, enquanto Simon nunca consegue “ver” alguém sem o “ver como um grande estranho” ou “como um conhecido”.

Tudo isto ganha uma espantosa energia visual nas cenas finais: Ariane desaparece, isto é, assume-se como o nada que é, e Simon avança em direção ao mar, dividido entre um corpo iluminado que caminha e uma cabeça que desaparece no negro da noite. Quando ele regressa no barco que o salvou, vem atónito e violentado: não se sabe o que viu, mas suspeitamos que ele viu de frente essa nada que finalmente o libertou dos intermináveis labirintos do sono.

11 de Setembro [de 1993]

  Jantar de encerramento do congresso no Convento de S. Lourenço , onde, segundo os dizeres duma lápide, Carlos V estanciou algumas vezes. ...