sexta-feira, 5 de setembro de 2025

O sexo das bebidas

 5 de setembro de 2001

Talvez o Verão seja mais propício à comprovação da minha tese: há um esquema sexista profundamente enraizado nos empregados e empregadas de restaurante, bares e cafés, e que faz que uma divisão das bebidas entre bebidas “fracas” e bebidas “fortes” tenha como correspondência a divisão do mundo das pessoas entre o “sexo fraco” e o “sexo forte”.

Façamos a experiência. A gente pede ao almoço uma água e uma Coca-Cola. Mesmo que a Coca-Cola tenha sido pedida pela mulher, e a água pelo homem, o empregado trará invariavelmente a água para a mulher e a Coca-Cola para o homem. Mas se tivermos pedido uma cerveja e uma Coca-Cola, veremos que a cerveja vai para o homem e a Coca-Cola para a mulher. E se for entre uma cerveja e vinho tinto? Nesse caso, o vinho tinto torna-se masculino e a loura cerveja feminina.

Entre-se numa pastelaria: ele pede um chá, ela um café. O café virá para ele, o chá virá para ela. Isto para já não falarmos em bebidas que manifestamente caíram em desuso, mas que povoaram o imaginário de infância: a groselha, o capilé, a salsaparrilha… que lhes aconteceu, senhores?…

Que resulta deste mecanismo? Que o homem que bebe chá (até porque começou a beber chá em pequenino) sente-se por momentos desqualificado, mesmo que infinitesimalmente, na sua virilidade, na medida em que escolheu para beber um produto que não é para pessoas de barba rija (dizem). É evidente que tais efeitos podem não ser desastrosos, nem conduzem forçosamente à angústia da castração. Haverá mesmo espaço para uma estratégia de apelo à maternização, mas nesse caso o melhor é sermos radicais e pedirmos uma garrafa de leite. Ou podemos ir pela via do enfermiço, e escolher uma água das Pedras (na certeza de que nos dirão que infelizmente naquele dia só têm Vidago, e vice-versa).

O que se prova aqui é que de certo modo não são apenas o espaço e o tempo que funcionam como quadros mentais anteriores e determinantes da nossa perceção das coisas. É também, como nos prova o uso quotidiano da linguagem, a diferença sexual como estrutura que distribui o mundo em dois pólos. E nada melhor do que o exemplo das casas de banho. É verdade que as maravilhas do “design” têm avançado para tanta sofisticação que a sinalética proposta nos leva às vezes a perversas meditações para sabermos qual dos bonecos designa os homens e qual corresponde às mulheres. Mas basta um indício revelador ou uma pista secreta para e percebermos que, se aqui é homem, ali é mulher (ou ao contrário, claro). Maravilhas do estruturalismo.

O que me levou a uma silenciosa “gaffe” nas instalações de um aeroporto. Depois de ter identificado cuidadosamente os sinais, avancei para a porta certa, mas de lá saiu um ser tão alheio às classificações dos humanos que eu recuei para confirmar que me não tinha enganado. Ele olhou para mim, percebeu tudo, eu percebi que ele tinha percebido — e corei, de olhos no chão.

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