domingo, 31 de agosto de 2025

31 de agosto [de 1993]

 

       Pál Ferenc, que ensina literatura portuguesa na Universidade de Budapeste, anuncia-me a publicação recente de O Ano da Morte de Ricardo Reis na Hungria. Elogia, ainda que com algumas reticências, a tradução de Ervin Székely e recorda que no «passado ano académico» (o último?) a minha visão da história portuguesa «teve um sucesso». Acrescenta, e isto é o mais importante, que «neste momento húngaro nós poderíamos aprender muito com o seu ideário e as suas obras e é por isso, além do valor artístico, que cada vez mais aprecio os seus romances”. Gosto de o saber, mas dá-me vontade de dizer que seria mais proveitoso que estes moços se dirigissem a Deus em vez de rezarem no pequeno altar deste santo, ou, por outras palavras, lessem diretamente certos historiadores — os dos Annales, os da Nouvelle Histoire, o nosso José Mattoso — em lugar de gastarem o seu tempo a desenredar a história que se encontre nos meus romances. Mas certamente haverá para o gosto deles uma razão: talvez porque dos historiadores só se espera que façam história, e eles, de uma maneira ou outra, sem surpresa, sempre a fazem, ao passo que o romancista, de quem se conta que não faça mais que a sua fiçãozinha de cada dia, acaba por surpreender, e pelos vistos muito, se guiou essa ficção pelos caminhos da história como se leva uma pequena lanterna de mão que vai iluminando os cantos e os recantos do tempo com simpatia indulgente e irónica compaixão.

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