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domingo, 7 de setembro de 2025

Quantos anos tem a chuva?

 

07 de setembro de 2001

Imagino um professor de Português para quem na linguagem existe tudo, desde que a gente saiba ler, mas sobretudo existe tudo o que está fora da linguagem. Imagino um professor de Português que vem dizer que Deus está no pormenor — e que está também na palavra mais discreta e invisível.

Ele pegava num verso e desdobrava-o como um fruto. Dizia, citando Herberto Helder: “Entrou na minha vida uma loucura branca.” Vamo-nos sentar em volta deste verso. E sentavam-se. “Alguém parte uma laranja em silêncio, à entrada / de noites fabulosas.” E avançavam pela noite das palavras.

Alguma coisa “entrou”. Não fui eu que enlouqueci, não fui eu que quis enlouquecer (é possível querer enlouquecer? Se fizeres muita força, és capaz? Ou já estavas a enlouquecer — devagarinho — quando disseste que querias enlouquecer?). Foi a minha vida que se transformou num lugar (vou contar um segredo sobre Herberto Helder: tudo nas suas palavras se converte em lugar), e alguém entrou nele. A loucura — reparem — é como se fosse uma pessoa: bate à porta, entra? Quais são os seres que podem entrar na minha vida? Um gato, a noite, a doença, a morte — tu?

Aqui foi a loucura. Mas o que é a loucura? Abre-se à nossa frente um espaço de dois lugares simétricos: à direita, a razão, à esquerda, a loucura. Ou seria melhor imaginarmos ao contrário? Haverá alguma cumplicidade secreta entre o lado esquerdo e a loucura? E ainda: serão mesmo dois lugares inteiramente simétricos? Não será que um parece fechado e arrumado, o lugar da razão, e outro parece ser o que resta, o avesso do primeiro: a loucura como o outro lado da razão. Será que podíamos viver num mundo em que só houvesse o lado direito das coisas? Que traz ao mundo a loucura? E o mal? E a noite? E a morte?

“Entrou” – diz o poeta. Mas foi de uma só vez? Ou este “entrou” significa um gerúndio?: “está entrando”. Um gato entra no meu quarto. Mas a loucura só pode entrar entrando, isto é, continuando a entrar. Até onde?

E porquê “branca”? A loucura poderia ser “negra”? Deveria? Poderia ser cor-de-rosa? E amarela? Haverá uma loucura amarela? Que significam as cores? Como é que tu sentes as cores? Branco e negro são ainda cores? Uma loucura branca será aquela que vai tão longe no ver que acaba por cegar num excesso de luz? Podemos olhar o sol de frente? Podemos olhar a loucura de frente? Haverá aqueles que amam os limites e aqueles que preferem habitar os patamares intermédios?

E depois o poeta abre a janela das perguntas: elas vêm na brancura do real. “Quantos anos tem a chuva, em que mudez nasce o  álamo, com que passos chega a noite sobre o odor da salsa viva?”

Foi uma aula de Português: “O tempo leitor de um. Autor. / Ou um livro e um Deus com ondas de um mar / mais pacientes. / Ondas do que um leitor devagar.”

P.S. — Estas crónicas serão interrompidas por duas semanas. Regresso a 24 de Setembro.

sábado, 6 de setembro de 2025

Paulo Coelho decidiu ensandecer

 

06 de setembro de 2001

Já há muitos anos surgiram nas universidades os exames “ad hoc”, que permitiam a pessoas já com atividade profissional, e que não haviam chegado a passar pelo ensino superior, que pudessem ter uma segunda oportunidade de fazer os cursos. A ideia era excelente, e partia do princípio de que a escola não é um período, mas uma dimensão da vida, que sempre nos acompanha e nos desafia.

Tornava-se necessário verificar se a pretensão de cada um não era completamente absurda, e para isso estabeleceram-se provas orais de avaliação. Não se veja nisto nada de elitista. Um analfabeto pode ser uma pessoa de enormes méritos, mas não faz sentido que esteja numa universidade onde é preciso fazer leituras intensivas.

Contudo, estas provas eram delicadas, na medida em que não julgavam o saber das pessoas, mas as próprias pessoas. Sentia-me profundamente desarmado perante um candidato que me perguntava: “Mas por que é que eu não passei?” E apetecia-me sempre responder: “Se eu fosse capaz de lhe explicar de modo a que percebesse verdadeiramente as razões, então teria merecido passar.” Mas preferia calar-me, para não magoar ninguém.

É um pouco essa sensação de desconforto que tenho, ao ler, no número de 22 de agosto da “Veja”, a entrevista de Paulo Coelho. Sempre que o tinha encontrado, ou que me tinham contado coisas a seu respeito, eu havia ficado com a ideia de que se tratava de um homem que descobrira uma fórmula literária, que sabia que essa fórmula funcionava, mas que ao mesmo tempo tinha plena consciência das limitações do seu projeto. Isto é, entre Paulo Coelho, que vende toneladas de livros, e, por exemplo, Guimarães Rosa, autor genial que não é fácil encontrar nas livrarias portuguesas, a diferença é óbvia: Guimarães Rosa é mil milhões de vezes melhor do que Paulo Coelho.

O que ressalta na entrevista da “Veja” é que Paulo Coelho foi acometido de uma arrogância que o leva a dizer coisas irremediavelmente estúpidas. Cá encontramos aquela lamentável tendência para querer reduzir o mundo à mediocridade de que se é capaz (em Portugal temos diversas versões ramelosas deste figurino).

Paulo Coelho considera-se vítima de um “fascismo cultural”, acha que só se valoriza o que é “incompreensível e inacessível”, afirma sobre Joyce: “O que eu disse sobre James Joyce é verdade: ele é ilegível, ilegível.” E também acha que deve corrigir os outros: “Mesmo um livro como ‘Sidharta’, do Herman Hesse, é uma coisa mal acabada. O cara não soube acabar o livro, entendeu? Termina com aquela frase: ‘Tem que olhar o rio.’ Que rio, pô?”

O velho problema: se Paulo Coelho entendesse os disparates que diz, então não os dizia…

Paulo Coelho decidiu ensandecer

 

06 de setembro de 2001

Já há muitos anos surgiram nas universidades os exames “ad hoc”, que permitiam a pessoas já com atividade profissional, e que não haviam chegado a passar pelo ensino superior, que pudessem ter uma segunda oportunidade de fazer os cursos. A ideia era excelente, e partia do princípio de que a escola não é um período, mas uma dimensão da vida, que sempre nos acompanha e nos desafia.

Tornava-se necessário verificar se a pretensão de cada um não era completamente absurda, e para isso estabeleceram-se provas orais de avaliação. Não se veja nisto nada de elitista. Um analfabeto pode ser uma pessoa de enormes méritos, mas não faz sentido que esteja numa universidade onde é preciso fazer leituras intensivas.

Contudo, estas provas eram delicadas, na medida em que não julgavam o saber das pessoas, mas as próprias pessoas. Sentia-me profundamente desarmado perante um candidato que me perguntava: “Mas por que é que eu não passei?” E apetecia-me sempre responder: “Se eu fosse capaz de lhe explicar de modo a que percebesse verdadeiramente as razões, então teria merecido passar.” Mas preferia calar-me, para não magoar ninguém.

É um pouco essa sensação de desconforto que tenho, ao ler, no número de 22 de agosto da “Veja”, a entrevista de Paulo Coelho. Sempre que o tinha encontrado, ou que me tinham contado coisas a seu respeito, eu havia ficado com a ideia de que se tratava de um homem que descobrira uma fórmula literária, que sabia que essa fórmula funcionava, mas que ao mesmo tempo tinha plena consciência das limitações do seu projeto. Isto é, entre Paulo Coelho, que vende toneladas de livros, e, por exemplo, Guimarães Rosa, autor genial que não é fácil encontrar nas livrarias portuguesas, a diferença é óbvia: Guimarães Rosa é mil milhões de vezes melhor do que Paulo Coelho.

O que ressalta na entrevista da “Veja” é que Paulo Coelho foi acometido de uma arrogância que o leva a dizer coisas irremediavelmente estúpidas. Cá encontramos aquela lamentável tendência para querer reduzir o mundo à mediocridade de que se é capaz (em Portugal temos diversas versões ramelosas deste figurino).

Paulo Coelho considera-se vítima de um “fascismo cultural”, acha que só se valoriza o que é “incompreensível e inacessível”, afirma sobre Joyce: “O que eu disse sobre James Joyce é verdade: ele é ilegível, ilegível.” E também acha que deve corrigir os outros: “Mesmo um livro como ‘Sidharta’, do Herman Hesse, é uma coisa mal acabada. O cara não soube acabar o livro, entendeu? Termina com aquela frase: ‘Tem que olhar o rio.’ Que rio, pô?”

O velho problema: se Paulo Coelho entendesse os disparates que diz, então não os dizia…

11 de Setembro [de 1993]

  Jantar de encerramento do congresso no Convento de S. Lourenço , onde, segundo os dizeres duma lápide, Carlos V estanciou algumas vezes. ...