quinta-feira, 11 de setembro de 2025

11 de Setembro [de 1993]

 

Jantar de encerramento do congresso no Convento de S. Lourenço, onde, segundo os dizeres duma lápide, Carlos V estanciou algumas vezes. Com surpresa minha, tínhamos os nossos lugares na mesa de Fraga Iribarne. Estavam também Torrente e Fernanda, o presidente do PEN Clube Internacional, Ronald Harwood, e a mulher, uma Natacha alta e elegante, russa, mas só de lá ter nascido, e o reitor da Universidade da Corunha, com quem mantive uma longa conversação, tão variada que até meteu ténis... Depois disseram-me que pertence ao Opus Dei... Harwood, quando nos despedíamos, disse-me que Rushdie lhe havia falado do encontro que tive com ele. Curioso. Não pensei que fosse coisa para recordar...

 Amanhã regressamos a Lisboa. Chove em Santiago. «Choveu» em Santiago do Chile há vinte anos.

quarta-feira, 10 de setembro de 2025

Coimbra, 1 de novembro de 1933

Coimbra, 6 de março de 1933

Coimbra, 1 de março de 1933

Coimbra, 8 de janeiro de 1933

Coimbra, 6 de fevereiro de 1932

10 de Setembro [de 1993]


 

Contava-se que Rushdie falasse na assembleia do PEN Clube, e assim aconteceu. De improviso, à vontade, como quem nunca teve dúvidas sobre o fundo e as formas da questão. Foi aplaudidíssimo. Os delegados que depois pediram a palavra para perguntas também não deixaram dúvidas quanto à sua solidariedade pessoal e institucional. Mas a ironia trágica veio logo a seguir. Como se a situação de Rushdie não estivesse ali para servir-lhes de lição ou fosse uma mera hipótese académica, os escritores sérvios, bósnios e croatas presentes comportaram-se como inimigos mortais. Manda a verdade dizer, porém, que os provocadores foram os sérvios, quando pretenderam que passasse em silêncio uma proclamação de dois deles (não presentes em Santiago) apelando à morte de milhões de adversários. E depois dizem-me que exagero quando afirmo que o homem não tem remédio...

 Colóquio com Torrente. O mano-a-mano correu como se esperava. Dissemos algumas coisas sérias, e, de caminho, divertimo-nos e divertimos a assistência que enchia o auditório do Hostal de los Reyes Catolicos. Torrente é adorado, mas eu pergunto-me se também o seria no caso de o seu romance Os Gozos e as Sombras não ter sido adaptado à televisão...

 Chove em Santiago.

terça-feira, 9 de setembro de 2025

9 de Setembro [de 1993]

 

O grande acontecimento de hoje foi a chegada de Salman Rushdie, aquele escritor que, na opinião de Graça Moura, tirou vantagens substanciais da sua condenação à morte... Estivemos com ele meia hora, por trás da muralha da segurança. Rushdie pareceu-me um homem simples, sem sinal de sofisticação e vedetismo. Se já o era assim antes que Alá o tivesse fulminado, não sei. Agradeceu-me a carta que lhe escrevi há dois anos, citou passagens dela. Manifestou a sua esperança de que as dificuldades políticas e económicas com que o Irão se debate atualmente contribuam para a anulação da sentença, mas insiste que a pressão da solidariedade internacional continua a ser tão necessária como nos primeiros dias. Sou menos otimista do que ele quanto às probabilidades de um desenlace feliz desta absurda história. Ainda que o governo e as autoridades religiosas do Irão anunciem o cancelamento da «fatwa», Rushdie ficará sempre à mercê de um fanático desejoso de entrar no céu pela porta principal. Sem esquecer que os riscos de um atentado passarão a ser maiores a partir desse dia: despedida a segurança, Salman tornar-se-á mais vulnerável do que qualquer cidadão comum...

 Continua a chover em Santiago.

11 de Setembro [de 1993]

  Jantar de encerramento do congresso no Convento de S. Lourenço , onde, segundo os dizeres duma lápide, Carlos V estanciou algumas vezes. ...