Terceira parte dos desabafos de Silvino Costa:
«Entrando, finalmente, no assunto.
«Tu estás lembrado, certamente, do caminho que deste à tábua. Queimaste-la, não é verdade?
« — Mas que tem este filho da puta que ver com a tábua?... Era dele?
«Lá vem outro a meter-se na minha vida!
«Oh cabrões! Deixai-me em paz!...
«Isto sou eu que suponho que dirás, no entanto desculpa o exagero.
«De resto, isto não vai nascer daqui nenhum julgamento. A coisa em si não tem importância, nem eu lha liguei como te poderá parecer.
«No entanto, continua a ler: essa caso passou-se quase se poderia dizer sem eu ter culpa diretamente. Vais ver.
«Para encadernar, ou brochar, necessitei duma tábua, utilizei para isso aquela onde a rapaziada se diverte a jogar o dominó. Mas a certa altura saí; e quando voltei continuei o meu trabalho. Passados instantes, já o mal estava feito, verifiquei que a tábua já não era a mesma. Tinham-ma então trocado, para jogar. Preguntei-lhes: esta tábua é de fulano? Responderam afirmativamente. E eu um pouco aborrecido disse-lhes: bonito serviço, seus cabrões! Agora vai haver discussão por causa disto, e vocês é que são os responsáveis!...
«Passados uns instantes, pensei no caso e, vi um remédio, a tábua tem que ser aplainada e depois vai ao polidor e fica nova. Ele nem dará por isso. Descansei com esta solução.
«Porém depois tive que fazer e nunca mais me lembrou. Descansei de facto.
«Passados uns dias, — um ou dois, — tu dás com os riscos e se calhar estavas azedo e záz. Tábua para o lume.
«Eu não sabia.
«Ao entrar na barraca é que me puseram ao facto e até dum modo que me chocou.
«Claro, não acreditarás que eu sou tão sentimentalista que até tivesse chorado. Isso não. De resto em mim será mais fácil rebentar.
«Só com um violento ataque de nervos seria fácil soltarem-se-me as lágrimas.
«Mas neste caso, eu comovi-me por ver que a rapaziada me comunicava o caso com tristeza ou então talvez fosse um daqueles momentos em que não há vontade de rir. Mas não! Eles ficaram sentidos momentaneamente.
«Pois bem. Está o facto relatado. Agora vamos ao capítulo das conclusões.
«Eu, não te disse nada naquele momento por ver que estavas um tanto enervado e além disso, por já ter reconhecido e isto desde o princípio a minha abstração para não ver que a tábua era mais pequena.
«Tentei ensaiar novo processo de solução. Fui ter com um carpinteiro e levei-lhe um papel — que tu devias ter visto — com as dimensões da tábua, mais ou menos; mas o carpinteiro disse-me que sim e até hoje. Isto apesar de eu lhe dar a entender que tinha urgência.
«Tencionava pois dizer-te alguma coisa nessa altura. Mas até hoje não apareceu tal tábua, não quis esperar mais tempo.
«E agora repara, não terias feito melhor se guardasses a tábua? Primeiro, procuravas quem tinha sido o cavalheiro ou o sacana, e depois dizias-lhe: meu caro quero estes riscos tirados e para a outra vez mais respeito por aquilo que é dos outros. Eu então, tinha que te dar razão e ia pô-la como nova.
«Assim não solucionaste nada. Agiste como uma faísca, repentinamente, e a ação é condenável.
«Claro está, o “auto-de-fé” foi feito à tábua e intimamente não sei se a mim. Porém, como não ardi, foi a tábua que sofreu.
«Eu também já tive esse feitio se bem que dum modo diferente e com muito menos frequência. Mas recordo ainda, que quando fazia casos semelhantes era só em circunstâncias de não poder partir a cara ao causador do meu destrambelhamento de nervos.
«Mas repara a prisão tem-me modificado alguma coisa nesse aspeto se bem que de vez em quando sinta cá dentro a “besta”.
«No entanto, hoje fico chatiado quando dou a perceber que estou enervado.
«E porquê?
«Porque sei que os nossos companheiros, isto é os nossos camaradas, perguntam logo a eles mesmos: “que foi? que aconteceu?” “ele hoje está arreliado?”
«E isto, que poderá parecer bisbliotice não é.
«E tu sabes, também como eu, o que é.
«É uma realidade forçada, sabes.
«E para que, analisa:
«Aqui, no acampamento, encontram-se camaradas presos há 4, 5, 6, 7, 8, 9 anos portanto convivendo uns com os outros e resulta que existe uma familiaridade muito grande entre todos eles. Todos, bem entendido. Naquela parte, que é a maioria, que tem sabido portar-se com dignidade nas horas em que o “Colete” aperta, sabendo unir-se às convicções que possui para com coragem suportar toda a casta de patifarias que certas bestas-feras que por aqui têm passado nos têm infligido.
«Por consequência, é bem claro. Não seremos perfeitos, mas possuímos já algo do que é necessário para mais nos aperfeiçoarmos.
«E agora diz-me: achas razoável, nós que somos jovens e que seremos amanhã os futuros homens, que estejamos a cultivar a neurastenia ou pelo menos a dar-lhe mais largas? Certamente que não!
«Claro, tudo depende da maneira de ser, dir-nos-ão. Mas repara se não andarmos já com predisposição para os atos repentinos creio que teremos tempos de ponderar.
«Quantas vezes dá vontade de dar largas à bílis, mas por outras razões muito mais justificáveis e homens muito mais durázios que nós se encolhem.
«Olha que não é com o medo. É porque se lembram de que somos camaradas.
«É certo, esta palavra camarada está muito generalizada. Mas nota, e tu sabes bem.
«O seu significado é qualquer coisa mais altivo e digno do que aquilo que certos sapateiros da política dizem ou ainda o que outros imbecilmente possam dizer.
«Por isso, meu caro, a vida e o papel que dentro dela temos que desempenhar, é muito mais importante do que estes pequenos azedumes de que por vezes somos vítimas.
«Não te preocupes com tais ninharias e faz quanto possível para te desviares desses momentos de descontrol, que o tempo de prisão nos ocasiona e em que deixamos de ver os nossos camaradas, para ver neles os homens vulgares, lá de fora, dos quais muito erradamente o Albino Forjaz de Sampaio faz considerações.»
Dança pelo Ballet Galego Rey de Viana. Mistura de folclore e muitos dos tópicos mais cansados da dança clássica. O resultado não é brilhante, e algumas vezes chega a ser deprimente. A culpa não a têm os bailarinos, em geral, tanto quanto posso apreciar, com uma preparação técnica razoável. A culpa tem-na a incoerência do projeto artístico, agravada por uma invenção coreográfica que não vai além do elementar.
Chove em Santiago.
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