segunda-feira, 8 de setembro de 2025

8 de Setembro [de 1993]

 

 Quarta e última parte do caderninho de Silvino Costa:

 «Agora quase que sou obrigado a pedir-te desculpa, por te reconhecer que já sou muito extenso. É o que sucede a quem pouco conhece sobre redação.

«Cheguei, finalmente, às conclusões, como te havia dito. Estou convencido de que é melhor forma do que se te expressasse verbalmente.

«Tem o objetivo, além de falar de coisas que por todos nós passam, também de te dar a conhecer duma forma honesta e concreta a minha opinião. Acharás justa ou injusta.

«Segundo: serviu-me de exercício de redação. Embora eu não pretenda ser advogado ou coisa semelhante.

«Terceiro: dar-te-á a facilidade de concluíres concretamente o meu propósito e creio que não encontrarás, nele, aspetos destruitivos.

«Encontrarás, carência de bom português, na redação, etc. Porém o assunto não é descabido nem pretensioso.

«E para finalizar, porque já é tempo, acrescentarei que nunca constituirá forma de proceder resolvermos os nossos assuntos, ainda os mais íntimos, pela brutalidade.

«Ninguém, melhor do que nós poderá dar-se conta dos seus delitos e corrigi-los. É uma questão de vontade e de disposição.

«Suponho ter sido claro e, além disso, não usar de formas imperativas que dessem origem a um má interpretação do que me propus fazer.

«E, é tudo.» 

É tudo. Dir-se-á que é a história de uma insignificância. Mas haverá, num campo de concentração, insignificâncias?

No jantar oferecido pela Carmen Balcells, e em que estiveram presentes, além de nós, Jorge Amado e Zélia, Nélida Piñon, João Ubaldo Ribeiro e Berenice, Alfredo Conde e Mar, António Olinto e a mulher, e também Pilar Vazquez Cuesta, o Jorge, do outro lado da mesa, quis saber onde estarei por alturas de meados de outubro... Para o bom entendedor, até meia palavra sobra. Mas acreditará o Jorge, de facto, no que queria sugerir? Felizmente, ninguém se apercebeu nem da pergunta nem da resposta, em que fiz o possível por me mostrar desentendido.

 Nestas viagens há sempre livros oferecidos pelas chamadas entidades oficiais. Desconfio de que esses livros só existem para isso, para serem oferecidos. A oferta vem normalmente acompanhada pelo cartão-de-visita do ofertante, com ou sem acrescentamento de palavras amáveis. Já me sucedeu receber livros com dois cartões, talvez três, mas com nove, como hoje, nunca. Este de agora chama-se Santiago, camiño de Europa, e deve de ser bonito. Está ainda por abrir. Quanto aos cartões, começando do menor para o maior, vieram das seguintes pessoas, a quem, evidentemente, agradeço: Salvador Domato Bua, secretário-geral do arcebispado, Iago Seara Morales, director-geral do Património Histórico e Documental, Félix de la Fuente Andres, vice-comissário, Fernando Lopez Alsina, vice-comissário, Serafín Moralejo, comissário-geral, Jaime Terceiro Lomba, presidente do Patronato da Fundación Caja de Madrid, Daniel Barata Quintas, conselheiro de Cultura e Juventude, António Maria Rouco Varela, arcebispo de Santiago de Compostela, e, finalmente, Manuel Fraga Iribarne, presidente da Junta de Galicia... Guardarei para sempre o cartão do arcebispo, que nem imagina em que mãos veio cair o nome da sua sagrada pessoa, com muita coerência impresso em cor violeta...

Chove em Santiago. Chove muito em Santiago.

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