sábado, 6 de setembro de 2025

Paulo Coelho decidiu ensandecer

 

06 de setembro de 2001

Já há muitos anos surgiram nas universidades os exames “ad hoc”, que permitiam a pessoas já com atividade profissional, e que não haviam chegado a passar pelo ensino superior, que pudessem ter uma segunda oportunidade de fazer os cursos. A ideia era excelente, e partia do princípio de que a escola não é um período, mas uma dimensão da vida, que sempre nos acompanha e nos desafia.

Tornava-se necessário verificar se a pretensão de cada um não era completamente absurda, e para isso estabeleceram-se provas orais de avaliação. Não se veja nisto nada de elitista. Um analfabeto pode ser uma pessoa de enormes méritos, mas não faz sentido que esteja numa universidade onde é preciso fazer leituras intensivas.

Contudo, estas provas eram delicadas, na medida em que não julgavam o saber das pessoas, mas as próprias pessoas. Sentia-me profundamente desarmado perante um candidato que me perguntava: “Mas por que é que eu não passei?” E apetecia-me sempre responder: “Se eu fosse capaz de lhe explicar de modo a que percebesse verdadeiramente as razões, então teria merecido passar.” Mas preferia calar-me, para não magoar ninguém.

É um pouco essa sensação de desconforto que tenho, ao ler, no número de 22 de agosto da “Veja”, a entrevista de Paulo Coelho. Sempre que o tinha encontrado, ou que me tinham contado coisas a seu respeito, eu havia ficado com a ideia de que se tratava de um homem que descobrira uma fórmula literária, que sabia que essa fórmula funcionava, mas que ao mesmo tempo tinha plena consciência das limitações do seu projeto. Isto é, entre Paulo Coelho, que vende toneladas de livros, e, por exemplo, Guimarães Rosa, autor genial que não é fácil encontrar nas livrarias portuguesas, a diferença é óbvia: Guimarães Rosa é mil milhões de vezes melhor do que Paulo Coelho.

O que ressalta na entrevista da “Veja” é que Paulo Coelho foi acometido de uma arrogância que o leva a dizer coisas irremediavelmente estúpidas. Cá encontramos aquela lamentável tendência para querer reduzir o mundo à mediocridade de que se é capaz (em Portugal temos diversas versões ramelosas deste figurino).

Paulo Coelho considera-se vítima de um “fascismo cultural”, acha que só se valoriza o que é “incompreensível e inacessível”, afirma sobre Joyce: “O que eu disse sobre James Joyce é verdade: ele é ilegível, ilegível.” E também acha que deve corrigir os outros: “Mesmo um livro como ‘Sidharta’, do Herman Hesse, é uma coisa mal acabada. O cara não soube acabar o livro, entendeu? Termina com aquela frase: ‘Tem que olhar o rio.’ Que rio, pô?”

O velho problema: se Paulo Coelho entendesse os disparates que diz, então não os dizia…

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