4 de setembro de 2001
A coisa tem um tal ar de armadilha dos deuses que não resisto a contá-la. Aqui há dias, o PÚBLICO trazia como “tema de abertura” um “dossier” sobre a depressão. Dado que a questão me interessa, decidi guardar aquelas páginas na minha preciosa gaveta de recortes. E assim fiz. Mas certamente alguém desviou a minha mão para o jornal errado e quando esperava deparar com as páginas sobre a depressão, encontro, isso, sim, um “dossier” sobre a “incerteza que domina a economia mundial”! Talvez esta seja — como dizia o outro — a mãe de todas as depressões. De facto, entre saber que “chegou ao fim um longo período de expansão impulsionado pelas tecnologias da informação e da comunicação” e ler que “se a bolsa reflete o que se passa na economia, há razões para temer o pior”, a única dificuldade está na escolha do motivo que achamos mais forte para nos deprimirmos.
O que me diverte nesta situação é que por uma vez o bom-senso tinha razão contra a ciência. Quando víamos criarem-se festejadas empresas com projetos “on-line”, mobilizando dezenas de pessoas, e que achavam que tinham encontrado o negócio do século XXI, nós pensávamos: “mas quem é que vai pagar tudo isto?”, e só não o dizíamos em voz alta porque havia tantos especialistas convencidos do contrário. Pois foi o que se viu. As tecnologias da informação e da comunicação continuarão a ter um papel fundamental, o capitalismo tornar-se-á progressivamente cognitivo e patrimonial, mas a euforia da nova economia vai ter que se aplicar um pouco à velha economia.
Donde se prova que as depressões não são estritamente subjetivas, mas têm fatores históricos que as podem explicar. O interessante nestas matérias é que o amplo leque de doenças de que o homem do século XIX dispunha para dar enquadramento ao mal-estar da sua alma parece reduzir-se neste início do século XXI a uma oscilação obstinada entre estar na fossa e subir pela droga ou o álcool aos paraísos artificiais. Estamos em permanente vaivém entre a depressão e a dependência em relação a algo que em última instância impede o indivíduo de estar deprimido.
Alain Ehrenberg, que tanto se tem ocupado com estes temas, mostra em “La fatigue d’être soi” (Odile Jacob) que estamos perante uma mudança fundamental no modo de produção do equilíbrio do sujeito: onde antes reinava a obediência e a culpa, criando a cena de um conflito psíquico, domina hoje o sentimento de que somos sozinhos responsáveis por nós próprios, e que estamos condenados a ter sucesso ou a ir ao fundo. Escreve certeiramente Ehrenberg: “Em lugar de uma falha íntima em que os elementos estão em relação porque estão em conflito, temos hoje um vazio interior em que não há nem conflito nem relação.” E quando a Bolsa cai, e os despedimentos se multiplicam, o vazio ainda é maior.
Sem comentários:
Enviar um comentário