3 de setembro de 2001
Não sei se é uma polémica, mas não importa. Aliás as frentes polémicas são tantas e tão variadas, que eu estou sempre com a sensação de que me vou esquecer de alguma e de que chegará um dia em que não tenho mãos para as encomendas. Agora em relação a Vasco Graça Moura, gostaria de dizer duas ou três coisas prévias.
Primeiro, Vasco Graça Moura é um dos grandes nomes das nossas letras contemporâneas, magnífico poeta, excelente ensaísta, romancista inteligente (mais “francês” do que julga, mas isso são outros contos…). Portanto, neste plano não podemos confundir as coisas.
Segundo, Vasco Graça Moura é um excelente amigo, meu amigo de há muitos anos e múltiplas andanças, mas sobretudo pessoa que sempre saiu em defesa dos seus amigos, mesmo quando teria razões para estar ideologicamente distante deles.
Terceiro, e aqui já sei que a plateia vai protestar, Vasco Graça Moura é um espírito profundamente tolerante, que em todos os lugares que tem ocupado escolhe colaboradores e promove autores em total independência em relação a preconceitos ideológicos. Eu sei bem como, à frente da Imprensa Nacional, pugnou pela publicação dos trabalhos desse pensador assumidamente comunista, mas notável homem de cultura (sei que o “mas” é absurdo…), que é Óscar Lopes.
Quarto, na prática das suas múltiplas atividades, da RTP à Imprensa Nacional, passando pela Comissão dos Descobrimentos ou pela Fundação Gulbenkian, Graça Moura foi sempre muito mais aberto e desejoso de fazer andar as coisas com gente acima de tudo competente do que os seus textos programáticos poderiam fazer crer.
Dito isto, devo também reconhecer que, nas suas crónicas políticas, Vasco Graça Moura defende por vezes posições que me parecem profundamente de direita, que depois, como uma desconcertante inocência, me diz que são “sociais-democratas”. Meu caro Vasco, se são sociais-democratas, então eu sou a Marisa Monte…
Do seu texto recente no “Diário de Notícias” sublinho dois pontos. Vasco Graça Moura defende uma “política cultural social-democrata”. Ora ainda bem. Porque assim se prova que quem defende uma política cultural social-democrata não está a defender uma política cultural para os sociais-democratas — tal como quem defende uma política cultural de esquerda não está a defender uma política cultural para as pessoas de esquerda.
Segundo ponto: eu defendo uma política cultural que tenha como principal objetivo a promoção da cultura em todas as suas vertentes (criação, circulação, receção). Vasco, fala como objetivo prioritário para uma política cultural, “numa recuperação da memória nacional”. Receio sempre que estas formulações instrumentalizem a cultura em relação a algo que não é especificamente cultural. Gato escaldado… Mas continuaremos.
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